Os resultados financeiros das incorporadoras que atuam no programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) no quarto trimestre não corresponderam totalmente às expectativas do mercado. Apesar de um bom desempenho operacional na comparação com o mesmo período de 2023 e no acumulado do ano, analistas apontam que as entregas ficaram abaixo do esperado.
Empresas como Tenda, MRV e Plano&Plano decepcionaram por diferentes motivos. No caso da Tenda, a fraca performance da Alea, sua marca de casas pré-fabricadas, e uma maior provisão para a inflação impactaram a margem e a receita líquida. Já a MRV teve seus resultados afetados pela Resia, operação americana, mesmo com um bom desempenho no Brasil. Na Plano&Plano, a maior participação de empreendimentos do programa paulistano “Pode Entrar” pressionou a lucratividade no final do período.
Por outro lado, Cury e Direcional apresentaram resultados classificados como “fortes” e “sólidos”, ainda que dentro das projeções.
Apesar das frustrações pontuais, o cenário para as incorporadoras continua positivo. O MCMV segue com alta demanda e absorvendo o crescimento na produção. Ainda assim, o setor reivindica ajustes na política do programa para sustentar esse ritmo.
O presidente da Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz França, defendeu mudanças no teto de preço das unidades, mas restritas a algumas cidades. Hoje, o valor máximo do MCMV é de R$ 350 mil, válido apenas para a faixa 3, que atende famílias com renda entre R$ 4,4 mil e R$ 8 mil. Já as faixas 1 e 2, voltadas a rendas menores, possuem tetos entre R$ 190 mil e R$ 265 mil, dependendo da localidade, o que, segundo França, não seria mais suficiente em certos municípios.
Além disso, há a necessidade de atualização dos valores das faixas de renda, que permanecem inalterados desde 2023. “Não há necessidade de alteração que traga maior volume e demanda, ela já existe”, afirmou França.
A atualização beneficiaria incorporadoras voltadas para as faixas menores do programa, como a Tenda, que tem 55% de seus clientes na faixa 1. A Pacaembu, outra grande incorporadora não listada na bolsa, também sentiria os efeitos positivos, já que 68% de seus clientes pertencem a essa faixa. “Uma família que seria enquadrada, não entra mais, muda o patamar de juros e ela perde poder de compra”, explicou Victor de Almeida, presidente do conselho de administração da Pacaembu.
Contudo, nem todos veem com bons olhos a alteração do teto geral do MCMV. Em teleconferência de resultados, o presidente da Direcional, Ricardo Gontijo, criticou a possibilidade. “[O MCMV] deveria ser destinado para as famílias de menor renda, quando pensamos no futuro do país e no que é melhor para a sociedade”, afirmou.
Ainda não há uma previsão concreta para essas mudanças. Ronaldo Cury, diretor de relações com investidores da Cury, acredita que algo pode ser decidido até o fim do mês, quando haverá reunião do conselho curador do FGTS. Já Rodrigo Osmo, presidente da Tenda, prevê um prazo maior para essas alterações.
O otimismo entre as incorporadoras que atuam no MCMV se destaca em relação ao restante do setor. Pesquisa da Abrainc, com 54 empresários, revelou que 97% dos participantes do programa pretendem adquirir terrenos nos próximos 12 meses, enquanto esse percentual cai para 51% entre as empresas de médio e alto padrão. Além disso, 100% das incorporadoras do MCMV planejam lançamentos dentro de um ano, contra 84% das que operam nos segmentos superiores.
A competição pelo consumidor e por mão de obra tem se intensificado em São Paulo, mas há oportunidades em outras regiões. A Pacaembu identificou um potencial significativo no Mato Grosso, onde o crescimento impulsionado pelo agronegócio tem dobrado o tamanho de cidades do interior e aumentado a demanda por moradia. A empresa iniciou operações no estado no ano passado, em Cuiabá e Primavera do Leste, e neste ano expandirá para Sinop e Lucas do Rio Verde.
“O cliente de Mato Grosso hoje é a nossa maior renda média, maior do que São Paulo”, destacou Almeida. Segundo ele, esse público também gasta proporcionalmente mais com aluguel. Ainda assim, o interior paulista continua sendo a principal praça da Pacaembu, concentrando 72% dos terrenos da companhia.
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Informações retiradas de Ana Luiza Tieghi para ao Valor Econômico